Brasil só cria vagas formais de até 1 salário mínimo, mostra Caged


​Setor de agronegócios foi um dos que gerou vagas neste ano entre as faixas salariais mais baixas (Foto: Reprodução / EPTV)

Levantamento obtido pelo G1 com o Ministério do Trabalho e Previdência Social mostra que pelo menos desde 2015 o saldo positivo de vagas formais está se restringindo às faixas salariais de até um salário mínimo. Em 2014, houve saldo positivo de vagas até 1,5 salário.

Em maio deste ano, houve o fechamento de 72,6 mil vagas, segundo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Nos cinco primeiros meses do ano, um total de 448,1 mil vagas foram fechadas. Mas dentro da faixa salarial de meio a 1 salário mínimo, única a apresentar saldo positivo de postos de trabalho, foram geradas 96,5 mil vagas até maio.

Já as faixas salariais que mais fecharam vagas em 2014 foram de 1,51 a 2 salários e de 2,01 a 3 salários. Em 2015 o cenário se repete. Neste ano, as faixas com maior saldo negativo até maio são de 2,01 a 3 salários e de 3,01 a 4 salários (veja na tabela).

Setores
De acordo com o Ministério do Trabalho, os setores que tiveram saldo positivo de vagas do último mês do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) dentro da faixa salarial de até 1,5 salário mínimo foram agropecuária, extração vegetal, caça e pesca (40.653 vagas abertas), indústria da transformação (9.190 vagas) e serviços (2.012).

O sociólogo Ruy Braga, professor do departamento de sociologia da USP e estudioso do mercado de trabalho brasileiro, explica que, na década de 1980, o motor da criação de emprego estava concentrado na faixa salarial entre 3 e 5 salários mínimos e associado a empregos mais diretamente ligados à indústria.

Nos anos 1990, com a reestruturação produtiva, globalização, derrubada das tarifas alfandegárias, estímulo às importações, abertura dos mercados e processo de privatização, diz ele, a dinâmica mudou e o emprego criado no mercado formal se concentrou nas faixas acima dos 5 salários mínimos, principalmente nos sistemas financeiro e bancário.

De acordo com Braga, nos anos 2000, especificamente a partir de 2003, houve a criação de 2,1 milhões de empregos formais todos os anos, até 2014, concentrados na faixa salarial de até 1,5 salário mínimo. E a partir de 2015 começou a forte perda líquida de emprego.

Segundo Braga, o modelo de desenvolvimento econômico brasileiro dos últimos 13 anos se estruturou em torno de setores que não são demandantes de força de trabalho qualificada, como o agronegócio, a construção civil, construção pesada e serviços.

O sociólogo diz que o setor de serviços absorveu principalmente a massa de desempregados criada na década de 1990 pela crise do emprego na indústria. “Consequentemente essa massa de novos trabalhadores que foram inseridos em ocupações formais nos últimos 13 anos encontrou um mercado de trabalho que se especializou em multiplicar essas ocupações que não dependem de tempo de formação. Normalmente são empregos que pagam 1,5 salário mínimo na entrada, ou seja, empregos de classe trabalhadora, distribuídos principalmente no setor de serviços, que foi o que mais absorveu essa massa”, explica.

Braga cita ainda a indústria do call center, que cresceu exponencialmente nos últimos 12 anos e que agora com a crise passou a demitir. “Mas até então se transformou na principal porta de entrada do mercado de trabalho principalmente para o grupo de trabalhadores mais jovens e que se especializou nesse tipo de emprego que paga até 1,5 salário mínimo, com alguma proteção trabalhista, mas altas taxas de rotatividade e de adoecimento, mas que ofereceu a possibilidade para que os trabalhadores subalternos, principalmente mulheres e negras, pudessem entrar no mercado formal como primeiro emprego, então é uma massa muito jovem que ilustra bem esse tipo de emprego que foi criado nos últimos anos no Brasil”, diz.

O sociólogo lembra que a indústria de energia, petróleo e mineração tiveram um crescimento exponencial na década passada, mas entraram em crise com a queda nos preços das commodities nos últimos anos e, com a retração das atividades, passaram a fazer parte da realidade do desemprego. “São setores importantes da atividade econômica, mas não se caracterizam propriamente pela multiplicação de empregos qualificados”, afirma.

Quem ganha mais é demitido
Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria Integrada, diz que é natural na atual conjuntura econômica as empresas adequarem suas atividades à demanda menor, produzindo mais com a mesma quantidade de pessoas. “Para ajudar a produção e o nível de demanda mais baixo tem o processo de demissão de pessoas que ganham mais. Assim, o salário médio diminui justamente porque o empregador demite pessoas que têm salário maior e recompõe com pessoas menos experientes”, explica.

Bacciotti afirma que o emprego privado está caindo e as pessoas estão buscando se recolocar no mercado com outras atividades, principalmente por conta própria, e dentro desse segmento também ocorre diminuição da renda.

O economista afirma que os salários vão achatando principalmente quando as pessoas não têm mais opção no mercado de trabalho. “Dá para esperar aumento de salário se houver melhora no nível de ocupação, mas há fatores estruturais que impedem melhora no rendimento. Tem que melhorar a negociação, mas não dá com tanta ociosidade. Quanto menor a ociosidade, a negociação fica mais fortalecida”.

Previsão
Para Braga, o cenário é bastante imprevisível, mas o que seria possível se imaginar para um futuro imediato é que haja uma pequena recuperação em termos de emprego provavelmente no próximo ano, com diminuição da taxa atual de desemprego e um ganho de empregos no mercado de trabalho. “No entanto, essa pequena recuperação não será capaz de recuperar a massa de emprego que foi perdida nesses últimos dois anos. Então a tendência é que o desemprego continue em alta e esses empregos que forem criados nesse momento sejam empregos que reproduzam as mesmas características da última década, ou seja, empregos que pagam muito pouco”, prevê.

“Um dos setores que estão sendo mais atingidos pela questão do desemprego hoje é o de serviços, até porque a indústria já passou por um processo de degradação e desintegração de algumas de suas cadeias e de elevação do desemprego e hoje é a vez do setor de serviços desempregar”, afirma.

Braga explica que o emprego no setor de serviços é mais barato que o da indústria e, por isso, é um setor muito flexível, pois cria-se muitas vagas e também se desemprega com muita rapidez e a rotatividade é muito alta. Segundo ele, caso haja uma retomada do emprego no país, ainda que discreta, haverá uma reedição do modelo concentrado no setor de serviços como ocorreu nos anos 2000, que continuará sendo carro-chefe desse processo de empregabilidade.

Para o economista da Tendências, o cenário atual do mercado de trabalho não deve melhorar tão cedo. “A gente trabalha com um cenário desfavorável para o mercado de trabalho. A taxa de desemprego tem espaço para aumentar. Há sinais de melhora, mas ainda não se materializaram”, diz.

Bacciotti diz que o mercado de trabalho é o último setor a responder num cenário de melhora da economia e prevê volta nas contratações mais para o meio do ano que vem. “Ainda está num processo de contenção de atividade, a confiança está melhorando, a indústria deve voltar a respirar até o ano que vem”.

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