Aquecimento global derrete 1,6 mil anos de gelo dos Andes em 25 anos


Gelo glacial nos Andes peruanos que levou pelo menos 1,6 mil anos para se acumular derreteu em apenas 25 anos, informaram cientistas, em mais um sinal de que o recente aumento nas temperaturas globais está desequilibrando a natureza. As evidências vêm de uma descoberta notável nas margens do glaciar Quelccaya, no Peru, o maior do mundo em uma região tropical. O derretimento acelerado no local durante a era moderna está revelando plantas que ficaram presas no gelo quando o glaciar avançou milhares de anos atrás.

A datação destas plantas, a partir de uma forma radiativa de carbono que decai a um ritmo conhecido, deu aos cientistas um método com precisão incomum para determinar a história das margens do glaciar. Lonnie G. Thompson, glaciologista da Universidade do Estado de Ohio cuja equipe tem trabalho intermitentemente no glaciar Quelccaya durante décadas, anunciou as descobertas esta semana no site da revista “Science”. O artigo inclui uma muito esperada análise dos marcadores químicos nos cilindros de gelo que a equipe escavou do fundo de Quelccaya, um registro que ajudará os cientistas de todo mundo na reconstrução das variações climáticas do passado.

Estas análises levarão tempo, mas Thompson diz que as evidências preliminares mostram, por exemplo, que a Terra provavelmente atravessou um período de clima anômalo na época da Revolução Francesa, que começou em 1789. O clima possivelmente contribuiu para a falta de comida que exacerbou a revolta.

– Quando há problemas no suprimento de comida, isto é má notícia para qualquer governo – disse Thompson em uma entrevista.

De ainda mais interesse, Thompson e sua equipe expandiram as pesquisas prévias envolvendo plantas há muito mortas que emergiram nas bordas de gelo derretido de Quelccaya, um enorme e plano glaciar localizado num planalto vulcânico a 5,5 mil metros de altitude. Há alguns anos, a equipe estudou as plantas que ficaram expostas próximas a um lago de gelo derretido. A análise química mostrou que elas tinham cerca de 4,7 mil anos de idade, provando que o glaciar atingiu no momento sua menor extensão em aproximadamente 5 milênios.

No novo estudo, outros 300 metros de derretimento expuseram plantas que os laboratórios mostraram ter 6,3 mil anos de idade. A interpretação mais simples, diz Thompson, é que o gelo que foi acumulado ao longo de aproximadamente 1,6 mil anos derreteu em não mais que 25 anos.

– Se há qualquer momento nos últimos 6 mil anos estas plantas tivessem sido expostas por um período de cinco anos, elas já teriam se decomposto – explicou Thompson. – Isso nos diz que o glaciar tinha que estar lá há 6 mil anos.

Meredith A. Kelly, geomorfologista glacial da Universidade de Dartmouth que trabalhou com . Thompson mas não está envolvida no último estudo, disse que está interpretação a partir dos restos de plantas é razoável. Sua própria pesquisa em Quelccaya sugere que as margens do glaciar derreteram rapidamente em épocas passadas, mas o derretimento atual parece ser tão rápido, se não mais, do que qualquer coisa que os registros geológicos mostram desde o fim da última Idade do Gelo.

O aquecimento global, que os cientistas dizem estar sendo causado primariamente pela liberação de gases-estufa pela Humanidade, tem mostrado seus efeitos mais fortes nas altas latitudes e altas altitudes. Depositado em uma elevação nos trópicos, o glaciar de Quelccaya parece ser extremamente sensível às mudanças na temperatura, dizem vários cientistas.

– Ele pode não derreter todo rapidamente porque tem muito gelo, mas talvez estejamos presos a uma situação em que vamos perder todo este gelo – disse Mathias Vuille, cientista climático da Universidade do Estado de Nova York em Albany.

Por todos os Andes, glaciares estão derretendo tão rápido que os cientistas estão profundamente preocupados com o suprimento de água das pessoas que vivem na região. A água derretida dos glaciares é essencial para as comunidades andinas enfrentarem as estações de seca. A curto prazo, o derretimento está aumentando o abastecimento de água e alimentando o crescimento da população nas maiores cidades dos Andes, contam os especialistas. Mas, com o encolhimento dos glaciares, problemas certamente são esperado no futuro. Douglas R. Hardy, pesquisador da Universidade de Massachusetts que trabalha na região, resume a questão:

– Quanto tempo temos antes que 50% das fontes de água de Lima ou La Paz desapareçam?

O Globo

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